segunda-feira, 30 de abril de 2012

A SERVIÇO DO PROJETO DE DEUS – APOSTOLADO



Jovita Cordeiro, OCDS[1]

Gostaria de começar esta reflexão com a definição de apostolado dada pelo decreto Apostolicam Actuositatem de Paulo VI, segundo o qual: “o apostolado é toda atividade com a finalidade de ordenar a Cristo o universo inteiro e tornar todos os homens participantes da redenção salvadora”.
Podemos dizer então que a vocação cristã é naturalmente uma vocação ao apostolado. Cada cristão deve ter como objetivo colaborar com o plano de Deus para que os seres humanos participem da redenção salvadora, orientando todos a Cristo. Entretanto, esta tarefa, a que todos são chamados indistintamente, deve se manifestar em cada vocação particular.
Deus dá a cada pessoa um lugar especial no cumprimento do projeto de Deus. Ele dotou cada homem e cada mulher de características singulares para que fossem capazes de contribuir, a sua maneira, na realização desse plano.
“O Espírito Santo concede também aos fiéis, para exercerem este apostolado, dons particulares[2], «distribuindo-os por cada um conforme lhe apraz» [3], a fim de que «cada um ponha ao serviço dos outros a graça que recebeu» e todos atuem, «como bons administradores da multiforme graça de Deus»”[4].
Assim, a tarefa que nos cabe é portanto intransferível, já que dependerá de nosso modo de ser, de nossas vivências, de nossas virtudes e limitações para ser realizada. Por sermos únicos, nossa contribuição também será única. 
Mas para ordenar a Cristo o universo inteiro, devemos, em primeiro lugar, estar com nossos corações orientados para Deus, de tal modo que nossa vida reflita o espírito e a mensagem do Evangelho, e sejamos capazes de: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmo”[5].
Entretanto, Deus sabe que não podemos amar a quem não conhecemos e por isso mesmo tomou a iniciativa de se comunicar amorosamente a nós através de sua Palavra. “E a Palavra de Deus acaba por indicar a Pessoa de Jesus Cristo, Filho eterno do Pai feito homem” [6]
Portanto, não podemos prescindir de nos encontrarmos com a Pessoa de Cristo, Palavra de Deus, presente nas Sagradas Escrituras e configurar nossa vida à vida de Cristo, pois como diz Santa Teresa, “para que o amor seja verdadeiro e duradoura a amizade, deve haver compatibilidade.” [7]
A palavra divina introduz cada um de nós no diálogo com o Senhor. Através dela, Deus fala e nos ensina como podemos falar com Ele. Participar deste diálogo é nos introduzir também em uma vida de oração, tratando “de amizade com quem sabemos que nos ama”.[8]
Sabemos que na cultura ocidental, a palavra “amor” encontra-se profanada pelo mal-uso. Muitas vezes, confundimos amor com sentimentalismo e fruição de um gozo sensível. Assim, só conseguimos amar aquilo que nos agrada. Mas, Jesus nos propõe, carinhosamente, outro modo mais perfeito de amor:
“Filinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade.”[9] E em outro trecho nos diz, acerca de nossas ações:
“Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama” [10]
O amor a Deus, portanto, nos aponta uma conduta: amar é cumprir os mandamentos.
Temos assim, mais um ponto a nos apoiar no cumprimento do projeto de Deus, tanto no âmbito do trabalho, da família, da política, em nossas comunidades, enfim, em todos os ambientes que frequentamos. Os mandamentos, contidos na Palavra de Deus, tornam-se, portanto, norteadores de nossa conduta ética e moral. Vive-los torna-se um sinal de pertencimento a Cristo. Hoje, mais do que nunca, em que vivemos uma crise de valores, o mundo está sedento deste testemunho.
Mas, viver e agir deste modo não tem como objetivo um fim em nós mesmos, nem concorre para que sejamos os únicos beneficiados, pois “não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire, mas no candelabro, para iluminar a todos que estão na casa. Assim, nos diz Jesus, deve ser todo aquele que o segue: brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vendo vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus.” [11](Mt 5, 15-16).
O testemunho cristão irradia naturalmente sua luz e alcança o outro.  O homem espiritual, por sua presença, por suas proposições, por suas atenções, difunde uma alegria serena nos que dele se aproximam. São reveladores de uma nova maneira de viver”[12].
Portanto, nosso relacionamento de amor com Deus não nos conduz a um fechamento na própria relação, mas amplia seu alcance abrindo-se aos demais para que se tornem participantes desse mesmo amor.
Os mandamentos nos direcionam naturalmente a amar os irmãos. Quem ama não irá matar ou desejar para si o que é do outro; honrará seu pai e sua mãe. Portanto, é inconcebível que aquele que se diz cristão se comporte contrariamente a estes princípios.
Neste sentido, Jesus nos adverte: “se alguém disser: ‘amo a Deus’ mas odeia seu irmão, é um mentiroso”. Aquele que ama a Deus, ame também seu irmão”[13].
Se devido a nossa história de vida não sabemos amar a nós mesmo, tampouco saberemos amar os irmãos. Jesus nos diz que precisamos pedir ao Pai que nos dê o Espírito Santo para que Ele nos ensine a amar verdadeiramente.
Além da oração e da Palavra de Deus, os sacramentos e a participação na vida eucarística são fontes da ação transformadora de Deus em nós.
A família e a nossa comunidade, ‑ família carmelitana ‑, são espaços privilegiados para convivência fraterna e a expressão do amor de Deus. “ Se não amamos ao irmão que vemos, como poderemos amar a Deus que não vemos?” [14] Novamente, Jesus reorienta a tendência que temos de viver o amor no âmbito simplesmente subjetivo e nos posiciona em nossa realidade objetiva.
A família nucelar do carmelita secular deveria ter como modelo a Família de Nazaré e tornar-se um lugar de irradiação da vida fundada em Cristo, e assim apresentar ao povo de Deus um modo possível de espiritualidade familiar.[15].
É justamente a espiritualidade que brota da oração, que o pai e a mãe carmelitas passarão a criança, ajudando-lhe a fazer seu encontro pessoal com Deus. Entretanto, quando esta realidade falta, a família corre o risco se tornar um ambiente onde se produzem as mais graves feridas.
Como parte de nossa vocação particular no seio da Igreja, Deus também nos chamou para sermos carmelitas, e assim nos ajudarmos e animarmos mutuamente na vida orientada para Cristo. Como o salmista poderíamos dizer, de uma forma um pouco diferente, “este foi o caminho que Deus fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos!”.
Como expressão de nossa vivência comunitária, a Santa Igreja nos exorta, além da vivência do amor:
 “Aqueles leigos que, seguindo a própria vocação, se alistaram em alguma das associações ou institutos aprovados pela Igreja, devem, de igual modo, esforçar-se por assimilar as características da espiritualidade que lhes é própria”.[16]
Penso que é importante enfatizarmos este ponto. Na Ordem Secular, não é incomum vermos pessoas que desejam abraçar ao mesmo tempo vários carismas, várias expressões de espiritualidade, sem conseguir se engajar profundamente em uma em particular. Assim, vivem na superficialidade ou com o coração dividido entre várias expressões igualmente boas. Entretanto, precisamos ser honestos conosco mesmos e com os irmãos e assumirmos o caminho e a espiritualidade que Deus pensou para nós.
Por último, o documento nos diz que “o apostolado, contudo, não consiste apenas no testemunho da vida; o verdadeiro apóstolo busca ocasiões de anunciar Cristo por palavra, quer aos não crentes para os levar à fé, quer aos fiéis, para os instruir, confirmar e animar a uma vida fervorosa; «com efeito, o amor de Cristo estimula-nos» [17]; a viver de acordo com sua palavra e deve nos animar a dizer como o Apóstolo: «ai de mim, se não prego o Evangelho» [18]
Mas devemos estar cientes de que é a credibilidade de nosso anuncio depende de nosso testemunho de vida.
Gostaria de terminar esta reflexão com um pensamento de São João da Cruz: Quanto maior a afeição, maior a identidade e semelhança, porque é próprio do amor fazer o que ama semelhante ao amado. Esperamos então que o amor de Deus por nós e a nossa correspondência realize em nos sua obra redentora e salvífica.[19]


[1] Formadora da comunidade Santa Teresa dos Andes – Belém-Pa
[2] 1Cr12,7
[3] 1Cr 12,11
[4]Cf PAULO XI, Decreto Apostolicam Actuositatem
[5] Mc12,29-31
[6] Cf BENTO XVI, Exort ap. pós-sinodal Verbum Domini
[7] Livro da Vida 8,5
[8] Ibidem
[9] 1Jo3,18
[10] Jo14,21
[11] Mt 5,15-16
[12] Dolto, A fé a luz da Psicanálise, p.40.
[13] 1Jo4,20-21
[14] 1Jo4,20
[15] Boletini, A Espiritualidade do Discipulado de Cristo, 15, 2007
[16] Cf PAULO XI, Decreto Apostolicam Actuositatem
[17] 2Cr5,14
[18] 1Cr9,16
[19] Subida ao Monte Carmelo

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