segunda-feira, 30 de abril de 2012

A vida fraterna em comunidade




Esta reflexão pretende nos ajudar a favorecer uma comunidade verdadeiramente humana, cristã e carmelitana. Tendo em vista os desafios inerentes à vida de uma comunidade, este texto está baseado no documento a “A vida fraterna em comunidade” bem como no documento “Como devemos ser”? do nosso padre geral, em síntese do Definitório de Ariccia em setembro de 2011.  
O tema deste XIV encontro de Presidentes e encarregados de formação, “Devemos nos considerar alicerces daqueles que hão de vir” já nos faz vislumbrar qual é o caminho que temos que trilhar. Os encarregados da formação e o presidente, tem um papel fundamental: alentar a comunidade para que ela possa estar “construída sobre a rocha”, ou seja, ter um bom alicerce.

Uma comunidade humana
Sabemos que em todas as instituições e organizações sempre existem as pessoas com funções determinadas, ou seja, existem aquelas pessoas que estão diretamente responsáveis. No caso das comunidades da OCDS temos o presidente e o formador e depois o conselho da comunidade. Faz-se necessário que se tenha clareza do papel do presidente que exerce sua autoridade como um serviço prestado aos irmãos. Deve existir sempre um esforço para que não haja problemas com a autoridade e que ela não venha a ser exercida como tirania, mas sempre através do diálogo e assim poder “ir à raiz das coisas”. Para que a vida da comunidade seja realmente fraterna é preciso que todos saibam respeitar e reconhecer o papel do outro. “A pouca clareza nesse setor é fonte de confusão e de conflitos” (VFC 51).
As comunidades da OCDS, seguindo o exemplo de Santa Teresa, devem ser comunidades dinâmicas e dinamizadoras. Isto pode ser vivido através das eleições trienais dos presidentes, dos formadores, dos conselheiros. O esforço dos membros deve ser sempre aquele de eleger novas pessoas para exercer os ofícios nas comunidades, dando sempre oportunidade para os demais.
Faz-se necessário o diálogo com os membros, sobretudo aqueles que estão com alguma pendência jurídica. Pessoas que pediram afastamento temporário e não procuraram mais a comunidade. Pessoas que querem voltar depois de muito tempo de afastamento e não querem retomar os estudos desde o começo. O importante é não ter medo de falar, de entrar contato com estas pessoas, esclarecendo a seriedade da consagração que fizeram bem como da ligação jurídica que tem com a Ordem. 
As reuniões mensais não são apenas ponto de encontro, mas deve existir sempre a motivação para a reunião com um cunho comunitário e carmelitano, para a oração, o estudo, a fraternidade, a recreação. Portanto, é necessário que exista sempre uma estrutura a ser seguida nas reuniões e que elas sejam preparadas com antecedência. 
Sabemos que as comunidades são humanas. Justamente por isso podem existir dificuldades nos relacionamentos, momentos mais áridos, turbulentos, mas isto não justifica que toda a comunidade caminhe desanimada. Apesar de tudo isso, devido a fragilidade humana, todos devem se empenhar através do diálogo, da compreensão, da partilha, evitar as colocações desnecessárias, assumir aquilo que diz, não fomentar ocasiões que possam dificultar a vida das comunidades. Para ser uma comunidade humana cada um deve se empenhar, da melhor maneira possível, para que as reuniões sejam prazerosas, tenha um clima alegre, descontraído, onde possa reinar a paz, a compreensão, o diálogo. Uma formação sólida leva a suportar as dificuldades.
A formação bem orientada ajuda no processo de conhecimento de nós mesmos. Na medida em que vamos nos conhecendo vamos também aprendendo a acolher o outro, a valorizá-lo, amá-lo e respeitá-lo. A formação humana leva a integrar fé e vida, pois quanto mais vamos nos conhecendo, mais vamos percebendo que preciso do outro e também vou reconhecendo que só posso estar com o outro porque é o Senhor que nos une, como num “colégio de Cristo”. Este caminho nos ensina “a olhar no rosto a realidade, o que somos atualmente, não o que fomos ou o que dizemos ou o que teremos o desejo de ser. Qual é a nossa consistência humana e espiritual como pessoas e como comunidade? Em que direção nos movemos? Quais correções queremos e podemos fazer na nossa rota”? (Doc. Ariccia 1)
É necessário perseguir o justo equilíbrio, nem sempre fácil de alcançar, entre o respeito à pessoa e o bem comum, entre as exigências e necessidades de cada um e as da comunidade, entre os carismas pessoais e o projeto apostólico da comunidade. E isso, afastando-se tanto do individualismo desagregante quanto do comunitarismo nivelante. A comunidade religiosa é o lugar onde acontece a cotidiana e paciente passagem do “eu” ao “nós”, do “meu” empenho ao empenho confiado à comunidade, da busca de “minhas coisas” à busca das “coisas de Cristo” (VFC 39).

Uma comunidade cristã
            Uma comunidade verdadeiramente cristã é aquela em que Cristo é o centro. O “eu” nunca deve ser o centro ou aquilo que move a comunidade. Caso contrário a comunidade vai se consumindo aos poucos pois perde seu vigor. Quando o “eu” se torna o centro a comunidade perde o sentido de ser, pois se reúne somente para que o “eu” seja apresentado, para que o “eu” seja visto e não Cristo seja manifestado através da nossa reunião. Por isso que o papel do presidente e do formador é exigente, pois devem ser objetivos, orientando, guiando a comunidade baseando-se no projeto comum (Constituições, Regra, Estatuto, Ratio) e não em projetos subjetivos (Ratio 30 a 35).
Jesus é o centro da comunidade, pois ela se reúne “por Cristo, com Cristo e em Cristo”. Por isso deve manifestar “nosso fervor em viver as exigências do seguimento de Jesus participando em sua missão salvadora e desenvolvendo nossa vocação profética, real e sacerdotal” (R 14).
Todos os projetos da comunidade são sempre em vista de Cristo. Para isso, nossa vida na comunidade deve nos levar a “zelar pela nossa conversão, deve favorecer nosso compromisso cristão bem como a santidade de vida”. Não tenhamos a pretensão de achar que já estamos prontos, formados, mas estamos sempre a caminho. As promessas que são feitas nos levam a configurar com Cristo para viver uma vida mais evangélica e não são meios que garantem nossa pertença a comunidade.

Uma comunidade Carmelitana
O Estatuto da OCDS afirma que “o chamamento à Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares supõe uma vocação particular de compromisso com um estilo de vida carmelitano, com uma comunidade e suas estruturas e com a Igreja. Como toda vocação é fruto de uma escolha amorosa e gratuita da parte de Deus e exige uma resposta e adesão livres por parte da pessoa” (6). Para viver a vocação de carmelita é necessário que tenha clareza na vocação. Saber o que está escolhendo, conhecer o que vai abraçar, pois uma escolha mal feita pode deixar a pessoa frustrada e ainda prejudicar a vida da comunidade.
O processo formativo visa orientar as pessoas a uma identificação ou não com a Ordem. Para pertencer ao Carmelo não basta somente uma identificação afetiva, mas tal identificação deve ser, sobretudo, efetiva. Assim sendo, a pessoa assumirá com compromisso e responsabilidade todos os seus deveres como consagrada ao Senhor pelo vínculo da espiritualidade carmelitana.
Durante a etapa da formação inicial, de modo particular, deve ser levado em consideração os critérios oferecidos para o discernimento vocacional dos candidatos. Deve ser apresentado de forma bem clara os elementos primordiais da vocação dos leigos carmelitas teresianos (Const. 9). “O discernimento comunitário é um procedimento bastante útil, embora não fácil nem automático, porque envolve competência humana, sabedoria espiritual e desapego pessoal. Onde é praticado com fé e seriedade pode oferecer à autoridade as melhores condições para tomar as necessárias decisões, tendo em vista o bem da vida fraterna e da missão” (VFC 50c).
Um elemento fundamental neste processo de conhecimento da vocação e da espiritualidade carmelitana é o estudo (Const. 19). O Estudo proporciona um conhecimento mais aprofundado do carisma, da espiritualidade além de favorecer a vida de oração e o compromisso do seguimento de Jesus pois a comunidade nasceu  “não da vontade da carne e do sangue”, não de simpatias pessoais ou de motivos humanos, mas “de Deus” (Jo 1, 13), de uma vocação divina e de uma divina atração, as comunidades religiosas são um sinal vivo da primazia do Amor de Deus que opera suas maravilhas e do amor a Deus e aos irmãos, como foi manifestado e praticado por Jesus Cristo”(VFC 1).
Faz parte da espiritualidade carmelitana e, não deveria faltar nas comunidades, dias de retiro e desertos, como meios que proporcionam a vida espiritual, para sermos contemplativos na oração e no cumprimento da própria missão.  É importante que os membros tenham um diretor espiritual para serem orientados por ele, pois o diretor nos orienta para o crescimento na vida espiritual, o conhecimento de nós mesmos e a viver os mistérios do amor de Deus.
Para que uma comunidade seja “alicerce para aqueles que virão” é necessário que ela seja humana, cristã e carmelitana. Aqueles que ali se achegarem devem sentir um clima de família, perceber a caridade vivida no relacionamento fraterno, na alegria, na doação e na amizade entre os membros que já pertencem a comunidade. Deve sentir ali, entre os irmãos, o “odor de Cristo”, pois a comunidade está reunida ao redor de Cristo. Evidentemente que a espiritualidade carmelitana não pode faltar, pois o que é essencial do Carmelo não pode ser marginalizado nos encontros, caso contrário, será apenas uma comunidade a mais. Todos estes empenhos, como nos diz o documento “Como devemos ser,” é para construir comunidades teresianas, que sejam lugares de autêntico crescimento humano e espiritual e de irradiação da verdade e beleza nelas experimentadas” (6).

Frei Fabiano Alcides, ocd.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...