sábado, 16 de dezembro de 2017

Convivência de Fim de Ano da OCDS Camaragibe/PE

Como sempre acontece, a última reunião de dezembro da OCDS Camaragibe é realizada com muita oração, brincadeira e clima de fraternidade.

O Condomínio Mirante do Vale foi o local escolhido mais uma vez. Arborizado e aconchegante, dispõe da estrutura perfeita para uma Reunião Festiva. 

Iniciando-se com canções, Laudes, Partilha do Evangelho e momentos de descontração, tivemos também a divulgação do Calendário-Programa de Formação para 2018. Elaborado pelo Formador e aprovado pelo Conselho da Comunidade, o Calendário é base de conhecimento para os mais antigos e para os novos em mais um ano que se inicia. Serão utilizados vários textos dos Livros de Formação da OCDS, mostrando que toda Comunidade Carmelita Secular deve dispor dos livros como fonte de estudo e consulta para fortalecer sua formação na caminhada ao "topo do Monte".










quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

"O pequeno Sêneca" São João da Cruz



   

João da Cruz (João de Yepes Álvarez), nasceu em Fontiveros (Ávila) em 1542. Eram três irmãos: Francisco, Luís e João. Seu pai Gonçalo morreu quando João era muito pequeno. Os parentes de Gonçalo tinham-no deserdado por ter-se casado com Catarina, de classe social inferior. Tinham ficado numa situação de pobreza, que se agudizou com a morte do pai.
Catarina vai pedir ajuda aos familiares de Gonçalo. Esteve em Torrijos (Toledo), sem êxito e continuou até Gálvez onde o médico da aldeia ficou com Francisco. Catarina volta a Fontiveros com João. Depois de um ano, volta a Gálvez para ver Francisco. Ao aperceber-se de que Francisco não era bem tratado levou-o consigo e com João foram procurando onde estabelecer-se. Primeiro em Arévalo e por fim Medina do Campo. Por ser tão pobres João pôde ingressar no Colégio dos Doutrinos. Entrou também como enfermeiro no Hospital da Conceição e como aluno externo no Colégio dos jesuítas, onde esteve de 1559 a 1563.
Em 1563 ingressa no Carmo de Santa Ana de Medina como noviço, professando no ano seguinte. Estudou filosofia na Universidade de Salamanca durante três anos. Nas férias de 1567 encontra-se com Santa Teresa em Medina.
A Santa convence-o a deixar de lado a ideia de ir para a Cartuxa pedindo-lhe que aderisse à nova família carmelita. João aceita e volta a Salamanca para fazer um ano de teologia.
Em 1568 volta de Salamanca e continua dialogando com Teresa sobre a nova vida carmelita. Acompanha-a na fundação das monjas em Valladolid aprendendo o estilo da reforma. Terminada aquela espécie de noviciado, João parte para Duruelo (Ávila) e vai adaptando a casita que foi doada à Santa para primeiro convento de frades.




A inauguração oficial foi a 28 de novembro de 1568. Foram visitados pela Santa na Quaresma de 1569.
João da Cruz é nomeado maestro de noviços em Duruelo e com este cargo passa a Mancera em 1570. Daí vai organizar o noviciado em Pastrana (Guadalajara) e volta a Mancera. Em abril de 1571 foi nomeado Reitor do Colégio de Alcalá de Henares. No ano seguinte Santa Teresa chama-o para Ávila para ser confessor do grande mosteiro da Encarnação, onde Teresa é Priora.
Passa cinco anos em Ávila. É conhecido pelo seu poder contra os espíritos malignos, como exorcista e maestro de espíritos. Os carmelitas calçados levam-no de Ávila preso para o convento de Toledo. Passa nove meses na prisão, da qual foge em agosto de 1578.



Em 1578 participa no Capítulo dos descalços em Almodóvar del Campo (Cidade Real). Aí é nomeado Superior do convento do Calvário (Jaén). Permanece no Calvário um ano e em 1579 vai fundar como Reitor o convento-colégio da Ordem na cidade universitária de Baeza.
Em janeiro de 1582 vai para Granada. Nessa cidade, no convento dos Santos Mártires, é eleito Prior por três vezes. Em 1585 é eleito vicário Provincial de Andaluzia. Participa em Alcalá de Henares no capítulo de separação da província descalça em 1581. Igualmente assiste a todos os demais Capítulos: Almodóvar em 1583, Lisboa-Pastrana em 1585, Valladolid em 1587, Madrid em 1588, 1590 e 1591. A partir do Capítulo de 1588 é a segunda autoridade da Ordem, e como tal, passa a Segóvia, como membro do novo Governo da Consulta, presidindo às sessões quando está ausente o Vicário Geral Nicolás Dória. Constrói novo convento em Segóvia. Sai de Segóvia para Peñuela em agosto de 1591. Fica doente e a 28 de setembro passa a Úbeda. Não é bem acolhido pelo prior de Úbeda e sofre perseguição de Diego Evangelista. Morre em Úbeda a 14 de dezembro de 1591. O seu corpo é trasladado a Segóvia em 1593.




As obras

João da Cruz gostava mais de falar do que escrever sobre coisas espirituais. O magistério oral era a sua vocação mais profunda. Escreveu espontaneamente os Ditos de luz e amor, as cartas, Cautelas e pouco mais.
Os grandes livros: Subida-Noite, Cântico, Chama, foram escritos por pedidos de frades e monjas.
Contamos atualmente com boas edições dos seus escritos, divididas em duas metades: os Escritos breves e as Obras maiores.
Os escritos breves são também chamados obras menores; não por ter menor importância que os demais escritos. Simplesmente porque são mais breves.
É mais simples e eficaz começar por ler os escritos breves que na sua maioria precedem cronologicamente os grandes tratados.
Da leitura atenta dos grandes poemas nascerá no leitor o desejo de conhecer o seu significado lendo os comentários em prosa.




Espiritualidade
A espiritualidade de São João da Cruz é inteiramente teologal. O esquema teologal (2S c. 6) ilumina e organiza perfeitamente todo o seu magistério. Esse dinamismo teologal está impregnado da palavra de Deus, da qual João da Cruz está enamorado. Nesse registo de vida teologal apresenta os mistérios da fé, o enamoramento recíproco de Cristo Jesus e a alma que aparece nos seus escritos de Subida, Noite, Cântico e Chama. Sobre o magistério de João pôde dizer-se:A vida teologal é a atualização e informação das atitudes e comportamento da pessoa pelas três virtudes teologais. Elas integram, orientam, impulsam e transformam a pessoa e a vida, dando-lhes uma projeção total para Deus. Vida de fé, de esperança e de caridade com tudo o que implica de exigências divinas e renúncias humanas, espirituais e terrenas” (Isaías Rodríguez, La vida teologal según el Vaticano II y San Juan de la Cruz, en Revista de Espiritualidad 27 (1968), 477)



Será útil transcrever uma carta de Edith Stein escrita a 30 de março de 1940 na qual se refere a um ponto muito importante da espiritualidade de João da Cruz. Edith Stein recebeu carta de uma religiosa dominicana chamada Agnella Stadtmüller, doutora em filosofia. Na carta lhe preguntava sobre o que entendia São João da Cruz por “amor puro”. Edith responde exatamente ao que se lhe pergunta. As suas palavras são as seguintes: “São João da Cruz entende por “amor puro” o amor de Deus por Ele próprio; o de um coração livre de todo apego a qualquer coisa criada: a sí próprio e ao resto das criaturas, mas também a todo o consolo e coisas semelhantes que Deus possa conceder à alma, a qualquer forma de devoção especial, etc.; o de um coração que não deseja outra coisa senão que se cumpra a vontade de Deus e que se deixa guiar por Ele sem resistência. O que não podemos fazer para chegar até aqui está amplamente tratado na Subida do Monte Carmelo. Como Deus purifica a alma, na Noite Escura. O resultado, na Chama de Amor viva e no Cântico Espiritual. Pode encontrar-se todo o caminho em cada uma das obras, apesar de que em cada caso se acentua uma etapa ou outra. Mas se deseja aprender o essencial, dito de forma muito mais breve, então deve ver os escritos breves”.



Lugares
João da Cruz teve uma geografia reduzida: viveu só em Espanha e alguns dias em Portugal. O ponto mais alto que tocou no mapa da Península ibérica foi Valladolid, onde foi acompanhando santa Teresa em 1568 e onde voltou em 1574 para fazer declarações diante do tribunal da Inquisição sobre a sua intervenção no caso de uma mulher de Ávila, Maria de Olivares Guillamas; e uma última vez em 1587 no Capítulo da nova província de descalços. O ponto sul mais extremo no qual esteve várias vezes foi a cidade de Málaga; a oeste, a cidade de Lisboa em 1585. A vila murciana de Caravaca é o ponto extremo a este, onde esteve algumas vezes. Dentro dessa geografia tão reduzida percorreu uns 27.000 quilómetros, caminhando sobre tudo a pé ou num jumento.
(José Vicente Rodríguez, San João de la Cruz, La biografía, Ed. San Pablo, Madrid 2012, 61).




Lugares a visitar:

Fontiverosonde nasce e é batizado.
Medina del Campo: frequenta o colégio, ajuda os doentes do Hospital e estuda com os jesuítas; entra na Ordem do Carmo e professa em 1564.
Salamanca: é estudante de Filosofia e Teologia na Universidade. Vive no colégio de San Andrés. É ordenado sacerdote em 1677. Em 15767 e 1568 encontra-se com Santa Teresa em Medina. Vai com ela a Valladolid, ficando aí cerca de um mês.
Duruelo-ManceraEm Duruelo vai preparando a casa na qual inaugurará a renovada vida carmelita em novembro de 1568. Em Duruelo e Mancera é maestro de noviços.
Ávila: Vive aí cinco anos (1572-1577).
Toledo:É trazido para a prisão onde fica nove meses e da qual foge.
El Calvário: Prior do convento.
Baeza: em 1580 funda o colégio nesta cidade universitária sendo reitor dessa casa.
Granada: chega em janeiro de 1582 e vive aí até ao verão de 1588.
SegóviaVive aí de 1588 a 1591.
La PeñuelaVive aí em Agosto e Setembro de 1591.
Úbeda: onde morre. Os seus restos repousam em Segóvia desde 1593.



 Fonte: Curia Generalícia Carmelo Teresiano  

Solenidade de São João da Cruz

Mensagem de Frei Alzinir F. Debastiani, ocd. 



Olvido do que é criado,
memória do Criador,
atenção ao interior
e estar amando o Amado.

Estes 4 versos da Suma de perfeição de S. João da Cruz contém 4 conselhos que, além de formar um conjunto harmonioso, anunciam o programa de vida espiritual. Cada verso supõe o anterior, que o complementa e leva a entender o seu sentido. No final, culminando assim com o objetivo dos seus demais escritos, João quer levar à união com Deus pelo amor, o exercício constante de amar ao Amado.

Olvido do que é criado

O esquecimento das criaturas que pede aqui o Santo é aquele afetivo, desapegar-se das criaturas segundo o afeto, de forma que o apego às criaturas, às recordações, etc., deixem na alma o vazio, a fim de que Deus possa preenchê-la com sua Presença. Assim o havia recomendado: “para viver em inteira e pura esperança de Deus, é mister, todas as vezes que ocorrerem notícias, formas ou imagens distintas, não se deter nelas, mas elevar-se a Deus no vazio de todas essas lembranças, com afeto amoroso, sem reparar em tais coisas senão para entender e cumprir o que é de obrigação, no caso de serem relativas a seus deveres. Mesmo assim é necessário não pôr o afeto e gosto naquilo que lhe vem à memória, para não ficar efeito na alma. Deste modo, não deve deixar de ocupar o pensamento em lembrar-se do que é obrigada a saber e a fazer, pois não tendo nisso propriedades em apego, não lhe será prejudicial. As sentenças encontradas no fim do capítulo 13 do primeiro Livro, e escritas no "Monte", poderão ser-lhe úteis nesse trabalho de despojamento” (3 Subida 15,1).

Memória do Criador

Servir-se das criaturas para ir ao Criador delas, significa ter presente que Deus as transcende, é muito superior a elas. Este cuidado, sustentado pela virtude da esperança faz com que a alma “não se engolfe em coisa alguma deste mundo, e não haja lugar por onde os possa ferir alguma seta deste século. Só deixa à alma uma viseira, a fim de poder levantar os olhos para cima, e nada mais. Tal é, ordinariamente, o ofício da esperança dentro da alma, — levantar os seus olhos para olhar somente a Deus, como diz Davi: "Meus olhos estão sempre voltados para o Senhor" (Sl 24,15). Não esperava bem algum de outra parte, conforme ele mesmo diz em outro Salmo: "Assim como os olhos da escrava estão postos nas mãos da sua senhora, assim os nossos estão fixados sobre o Senhor, nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós" (Sl 122,2). Assim, quando a alma se reveste da verde libré da esperança, — sempre olhando para Deus, sem ver outra coisa nem querer outra paga para o seu amor a não ser unicamente ele, — o Amado, de tal forma nela se compraz, que, na verdade, pode-se dizer que a alma dele alcança tanto quanto espera” (2 Noite 21,7).

Atenção ao interior

O Santo quer levar as pessoas ao centro, ao interior, onde mora a SS. Trindade, onde o Amado está escondido: “Que mais queres, ó alma, e que mais buscas fora de ti se tens dentro de ti tuas riquezas, teus deleites, tua satisfação, tua fartura e teu reino, que é teu Amado a quem procuras e desejas? Goza-te e alegra-te em teu interior recolhimento com ele, pois o tens tão próximo. Ai o deseja aí o adora, e não vás buscá-lo fora de ti, porque te distrairás e cansarás; não o acharás nem gozarás com maior segurança, nem mais depressa, nem mais de perto, do que dentro de ti” (Cântico 1,6-8). Normalmente ele recomenda unir à atenção uma atitude de advertência amorosa (cf. 2 Subida 12,8; 13, 4; 15,5) para poder encontrar o Amado, escondido no mais profundo de si. “No entanto, dizes - Se está em mim aquele a quem minha alma ama, como não o acho nem o sinto? A causa é estar ele escondido, e não te esconderes também para achá-lo e senti-lo. Quando alguém quer achar um objeto escondido, há de penetrar ocultamente até o fundo do esconderijo onde ele está; e quando o encontra, fica também escondido com o objeto oculto. Teu amado Esposo é esse tesouro escondido no campo de tua alma, pelo qual o sábio comerciante deu todas as suas riquezas (Mt 13,44); convém, pois, para o achares que, esquecendo todas as tuas coisas e alheando-te a todas as criaturas, te escondas em teu aposento interior do espírito; e, fechando a porta sobre ti (isto é, tua vontade a todas as coisas), ores a teu Pai no segredo. E assim, permanecendo escondida com o Amado, então o perceberás às escondidas, e te deleitarás com ele às ocultas, isto é, acima de tudo o que pode alcançar a língua e o sentido” (Cântico 1,9).

e estar amando o Amado

A atenção ao interior leva à descoberta do Amor primeiro do esposo Cristo (Cântico 31,2), a quem a pessoa responde com o exercício do amor a Deus e ao próximo. “Com efeito, a saúde da alma é o amor de Deus; ora, quando a alma não tem perfeito amor de Deus, não tem perfeita saúde; ... Por consequência, é necessário saber que o amor jamais chegará à perfeição até que se juntem os amantes em unidade, transfigurando-se um no outro; só então estará o amor totalmente perfeito. A alma, nesta canção, sente em si mesma certo debuxo de amor, e deseja que ele se acabe de pintar, com essa figura apenas debuxada que é seu Esposo, o Verbo Filho de Deus... Esta é a figura que aqui compreende a alma, e nela deseja transfigurar-se por amor; e, por isto, exclama: "Olha que esta doença de amor jamais se cura, a não ser com a presença e com a figura” (Cântico 11,11-12). Faz parte do amor ser dinâmico, sair de si, pois “o amor nunca está ocioso, mas em contínuo movimento, e, como fogo em chamas, está sempre levantando labaredas aqui e ali; e sendo o ofício do amor ferir para enamorar e deleitar, como nessa alma ele se acha em viva chama, está sempre lhe causando suas feridas, quais labaredas terníssimas de delicado amor” (Chama 1,8). Ao Amor, responde-se com amor.

A este fim da união de amor com Deus quer levar-nos S. João da Cruz (Cântico 39,4); é o fim para o qual fomos criados. Por isso viver a Suma de perfeição implica em exercitar-se esta virtude, tão central na vida, a fim de viver no seu constante exercício (cf. Cântico 28).

Boa festa do Santo Padre João da Cruz!

Fr Alzinir F Debastiani OCD

Roma, dezembro 2017

(Cf.: José Vicente Rodriguez, El mirar de Dios es amar. Burgos, Monte Carmelo 2007, p. 115-128).

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Santa Maria Maravilhas de Jesus ,Virgem Carmelita descalça (1891 - 1974)









Nasceu em Madri, em 04 de novembro de 1891. Foi batizada no dia 12 do mesmo mês e ano, na paróquia de São Sebastião, com o nome de Maria Maravilhas Pidal y Chico de Gusmán.

Filha de Dom Luís Pidal y Mon e de Dona Cristina Chico de Gusmán y Muñoz, marqueses de Pidal. O pai era nesta época o embaixador da Espanha ante a Santa Sé. Havia sido Ministro de Fomento. 

Nasceu em Madri, em 04 de novembro de 1891. Foi batizada no dia 12 do mesmo mês e ano, na paróquia de São Sebastião, com o nome de Maria Maravilhas Pidal y Chico de Gusmán.
Filha de Dom Luís Pidal y Mon e de Dona Cristina Chico de Gusmán y Muñoz, marqueses de Pidal. O pai era nesta época o embaixador da Espanha ante a Santa Sé. Havia sido Ministro de Fomento
Dotada de grandes qualidades humanas, entre quais se destacam uma inteligência clara e profunda e uma vontade sempre orientada para o bem. Desde menina – ela mesma o diria – que se sentia chamada à vida consagrada. Dizia até que sua vocação havia nascido com ela.  Em sua juventude, além de cultivar sua vida de piedade e de levar a cabo seus estudos privados da língua e cultura geral, se dedicou às obras de beneficência e caridade, ajudando a muitas famílias, pobres e marginalizados.
Em 12 de outubro de 1919 entrou no Carmelo de El Escorial, próximo a Madri. Tomou o hábito em 1920 e fez sua primeira profissão religiosa em 1921.







O que levou a Santa Maria Maravilhas ao Carmelo foi o amor a Cristo, seus desejos de pagar-Lhe o Amor com amor. Centenas de vezes, em suas cartas, expressa este desejo de amá-lO com loucura, de corresponder com excessos ao infinito amor de Cristo. Este amor a Jesus Cristo está intimamente unido à sua devoção ao Coração de Jesus. Sabemos de suas largas vigílias diante do sacrário, em seus primeiros anos de carmelita, em El Escorial. Nessas horas, a sós com Deus, se forjou a fundação do Carmelo de Cerro de Los Angeles, que haveria de ser“lâmpada viva que se consumiria de amor e reparação ante o Coração de Cristo”.





Em 19 de maio de 1924, a irmã Maravilhas e outras três religiosas de El Escorial se instalaram em uma casa provisória no povoado de Getafe para, dali, atender à edificação do convento do Cerro. Nesta ocasião, fez sua profissão solene em 30 de maio do mesmo ano.
Em junho de 1926 foi nomeada priora da comunidade e, poucos meses depois, em 31 de outubro, se inaugurava o novo Carmelo em Cerro de los Angeles. Pronto se povoou o novo Carmelo de vocações, o que a impulsionava a multiplicar as “Casas da Virgem”.





Em 1933 fez a fundação de Kottayam (Índia), enviando oito monjas. Desde 1944 a 1966, lhe seguem outras nove fundações na Espanha. Em julho de 1936 estourou a famigerada Guerra Civil Espanhola e as monjas do Cerro tiveram que sair do convento. Em 1939, voltou com um grupo de monjas para recuperar o convento do Cerro, que havia ficado completamente destruído. Com muitos trabalhos e esforços em meio a uma grande escassez, a santa sabia infundir ânimo e alegria entre suas filhas.
Interessava-se pelos problemas dos outros e procurava dar-lhes solução. Lá de sua clausura de La Aldehuela funda um colégio para crianças pobres, faz construir uma vila de casas e uma igreja. Ajuda na construção de 200 vivendas próximas a La Aldehuela. Para levar a cabo essas e outras muitas obras, se apoiava confiantemente na Providência Divina.






“Não quero a vida mais que para imitar o mais possível à de Cristo”, havia escrito. Com esse desejo, amou e praticou a pobreza heroicamente. Os carmelos que funda vivem em pobreza radical, sem rendas, com edifícios pequenos, com trabalho manual para seu sustento. Suas filhas a amavam, tal eram o equilíbrio, serenidade, caridade e delicadeza com todas.






Sua alegria era plena de paz, sem estridências, sempre afável, sem impor seu critério; pedia sempre o parecer das demais. Eram contínuas as enfermidades e penitência (dormia pouco, vestida e deitada no chão). O apreço pela oração era extraordinário. Viveu a espiritualidade de São João da Cruz, sentindo-se sempre uma pecadora e um “nada”. Com alternância de estados dolorosos e gozosos, nos revela: “me sinto amada pelo Senhor”.Morreu no carmelo de La Aldehuela (Madrid) em 11 de dezembro de 1974, com uma morte cheia de paz e entrega. Repetia: “que felicidade morrer carmelita”!




Blog Santos,Beatos,Veneráveis e Servos de Deus, autor Giovani Carvalho Mendes,ocds ) acesse o site :


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Solenidade Imaculada Conceição de Nossa Senhora

A IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA

08 de dezembro 




 O artigo expõe o significado do dogma: Maria não herdou a carência da graça santificante que os primeiros pais perderam ao pecar; desde a sua conceição no seio de Santa Ana, ela foi portadora da graça - o que equivale a dizer que foi imaculada em sua conceição. Esta verdade foi controvertida pelos teólogos, pois julgavam que contradizia ao primado de Cristo Redentor de toda a humanidade. O impasse foi resolvido por obra de Duns Scotus (+1308), segundo o qual Maria contraiu o débito do pecado original, como todas as criaturas humanas, mas não contraiu as consequências desse débito, porque lhe foram antecipadamente aplicados os méritos de Cristo. Esta fórmula permitiu que a devoção à Imaculada se propagasse amplamente entre os fiéis a ponto de pedirem ao Papa Pio IX a definição do dogma - o que ocorreu aos 08/12/1854.

Nestes meses em que a Igreja se prepara para celebrar os 150 anos da definição do dogma da Imaculada Conceição de Maria(referente ao ano da publicação 2004) , está sendo propagado um panfleto polêmico: os católicos teriam começado a crer oficialmente no dia 8/12/1854 que Maria foi concebida sem pecado, embora grandes teólogos da Idade Média tenham rejeitado essa proposição. Tal impresso desfigura a verdade e suscita dúvidas na mente dos leitores; considera também o dogma da Assunção Corporal de Maria, que é uma consequência da Imaculada Conceição. Se Maria não contraiu o pecado, não foi sujeita ao império da morte ou à decomposição do seu corpo.




Observação preliminar

A fé é a resposta do ser humano a Deus que fala. Tal resposta não é meramente individual, mas é comunitária. Isto quer dizer que só podemos compreender todas as implicações e consequências contidas na Palavra de Deus revelada, se nos colocamos dentro da comunidade de fé que é a Igreja. A Igreja, como comunhão ou como Corpo de Cristo (cf. Cl 1, 24; 1Cor 12, 12-27), não pode errar na fé nem se pode desviar da Palavra trazida por Cristo e comunicada aos Apóstolos (cf. Mt 28, 18-20).

Note-se outrossim que a Revelação das verdades de fé foi completa em Jesus Cristo e nos Apóstolos, mas os cristãos não perceberam todo o seu alcance de uma só vez. Muitas coisas feitas por Jesus não foram relatadas nos Evangelhos (cf. Jo 20, 30s; 21, 24s), de modo que a Tradição escrita (a Bíblia) e a Tradição oral no decorrer dos séculos se foram completando até a Igreja chegar à plena intuição das proposições reveladas por Jesus Cristo. É o que nos diz o Concílio Vaticano II:

"A Tradição oriunda dos Apóstolos progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo. Com efeito, cresce a compreensão tanto das coisas como das palavras transmitidas, seja pela contemplação e o estudo dos que creem..., seja pela íntima compreensão que experimentam das coisas espirituais, seja pela pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma seguro da verdade. A Igreja, portanto, no decorrer dos séculos, tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que as palavras de Deus nela cheguem à consumação" (Constituição Dei Verbum n3 8).

Com efeito, a Revelação foi formulada em palavras humanas a homens limitados. Por isto a percepção de tudo quanto nela está contido vai-se realizando na medida em que vão caindo os obstáculos das limitações humanas que dificultam a compreensão. Foi o que se deu com os dois artigos de fé concernentes à Imaculada Conceição e à Assunção.

A fé da Igreja reconheceu, desde os tempos dos Apóstolos, o papel muito especial desempenhado pela Virgem SS. na Redenção dos homens. A expressão "cheia de graça" (kecharitoméne) achava-se no Evangelho de Lucas desde o século I (cf. Lc 1, 28). Mas as circunstâncias históricas não permitiram perceber com precisão todo o alcance desta proposição de fé. O povo cristão, como comunidade de fé, foi intuindo esse alcance com clareza crescente e sob a luz do Espírito Santo. Os teólogos procederam mais lentamente, de modo que, enquanto o "senso dos fiéis" afirmava a Imaculada Conceição, a teologia hesitou durante séculos, e mais vagarosamente chegou à formulação exata. Em 1854 o Papa Pio IX não fez senão assumir e pronunciar solenemente o que já estava na consciência dos simples fiéis e dos teólogos ou mesmo na fé da Igreja dos Apóstolos. Escreve muito sabiamente o teólogo Karl Rahner:

"A Igreja e o magistério sabem que não transmitem uma revelação de Deus que acontece aqui e agora pela primeira vez; sabem que não são profetas, mas, sim, uma instância cuja função consiste unicamente em conservar, transmitir e interpretar a revelação de Deus ocorrida em Jesus Cristo num preciso momento do passado" (Reflexiones en torno a la evolución del dogma p. 13).

Assim expostos os princípios que esclarecem a história, consideramos as principais dificuldades que a teologia encontrou para formular o dogma da Imaculada Conceição.



I. IMACULADA CONCEIÇÃO

1. Dificuldades para a compreensão
Embora os antigos estivessem conscientes de que Maria sempre viveu na graça de Deus, alguns entraves obscureciam a intuição das consequências desta premissa. Quais seriam?

1.1. A santidade singular de Jesus
Nos primeiros séculos, o pensamento cristão se voltou para a absoluta santidade de Jesus, condição para que realizasse sua obra salvífica. A santidade e a impecabilidade de Jesus foram deduzidas da sua união hipostática; o eu de Cristo era o da segunda Pessoa da SS. Trindade; como tal, não podia pecar. Em Maria, porém, não houve união hipostática...

1.2. A universalidade da Redenção
Não há graça nem salvação que não venham de Jesus Cristo. Todos são pecadores e foram remidos por Cristo. Ora, se Maria foi isenta do pecado original, ela nada deve a Cristo; está fora do plano salvífico do Pai.

1.3. O conceito de pecado original originado
Todos admitiam que o pecado dos primeiros pais acarretou a morte e graves consequências para o gênero humano, como nota S. Paulo em Rm 5, 12-19; 7, 7-24. Todavia nem todos entendiam do mesmo modo essas consequências. Alguns teólogos julgavam ser a morte física sem mais; outros, a morte segunda ou a condenação definitiva; outros, a cobiça e as paixões desregradas; outros, a deterioração do cadáver no sepulcro; outros ainda, o aniquilamento total do indivíduo mediante a morte... Enquanto perduravam essas hesitações, era difícil definir de que "pecado original" Maria fora isenta.

1.4. Um problema biológico
Os antigos e medievais julgavam que a semente vital masculina era o único princípio ativo na conceição de um novo ser humano. O útero da mulher seria um recipiente passivo, uma "incubadora biológica" para o desenvolvimento da semente masculina. O pecado de Adão se transmitiria por hereditariedade biológica ou pela semente masculina. Este princípio explicava bem por que Jesus fora isento de pecado original; não era filho de S. José no plano biológico. Maria, porém, nascera da união matrimonial de S. Joaquim e Sta. Ana; por conseguinte, não podia ter nascido sem o pecado original.

1.5. O momento da infusão da alma humana
Era problema muito antigo a questão: quando começa a existir um ser humano? Desde o momento da conceição ou da fecundação do óvulo pelo espermatozóide? Ou após certo intervalo (quarenta dias para os meninos, oitenta dias para as meninas)? Prevalecia na antiguidade e na Idade Média esta segunda teoria; em consequência, perguntava-se: como falar da conceição imaculada de Maria? Quem não tem alma humana (antes do 40s ou do 80s dia) não é sujeito de pecado e, por isto, não se pode dizer que foi preservado do pecado original em sua conceição.

Foram estas as grandes dificuldades que obscureceram os horizontes dos teólogos que abordavam o tema da isenção de todo pecado em Maria. Vejamos agora as etapas da reflexão teológica sobre o assunto.

2. A história da reflexão teológica

1. O primeiro testemunho a notar é o do Protoevangelho de Tiago (VI 2), que data do século II. Segundo este texto, um anjo terá dito a Santa Ana, estéril: "Conceberás e darás à luz; em toda a terra, se falará da tua descendência".

Pouco depois S. Joaquim, que estava no deserto, recebeu aí a mensagem de outro anjo, que lhe disse: "Joaquim, o Senhor Deus ouviu tua oração. Desce daí, pois tua esposa Ana concebeu em seu seio". (1)

(1) Verdade é que alguns manuscritos têm: 'Tua esposa... conceberá", o que talvez não seja a forma originária (N.d.R.).

O pretérito significa que Ana concebeu milagrosamente sua filha Maria SS.. Esta notícia não é tida como fidedigna; mas exprime no século II a consciência, dos cristãos, de que a conceição de Maria foi diferente da dos demais seres humanos.

2.  Até o século V não há testemunho explícito da imaculada conceição, mas os escritores da Igreja se comprazem em louvar Maria como santa e pura, exprimindo assim a fé do povo de Deus.

3.  Passemos à época do Pelagianismo (séc. V). Este afirmava a capacidade natural do ser humano para praticar o bem, sem necessitar da graça de Deus. Foi então que Pelágio (+422) escreveu a S. Agostinho: "A piedade impõe que reconheçamos Maria sem pecado". O S. Doutor aceitou a observação: quando se trata de pecado, Maria está fora de cogitação. Todavia entendia isto de modo diverso do pelagianismo: Maria não teve pecado por graça de Deus, não por santidade da natureza humana como tal. S. Agostinho não podia chegar à noção de imaculada conceição, porque julgava que o pecado dos primeiros pais se transmitia pela semente vital do homem; além do quê, a universalidade da Redenção lho impedia. Diante disto, o pelagiano Juliano de Eclano (+454) lhe objetava que Agostinho entregava Maria ao diabo. O S. Bispo de Hipona insurgiu-se contra esta acusação, mas de maneira insuficiente, ao dizer: "Não entregamos Maria ao diabo em virtude do seu nascimento, pois este é redimido pela graça do renascer" (Opus Imperfectum adversus Julianum 4, 122).

Estas palavras de S. Agostinho exerceram grande influência na posteridade; pareciam negar a imaculada conceição. Além do quê, esta parecia professada pela literatura apócrifa e pelos pelagianos, de modo que a teologia subsequente se mostrou pouco propensa a essa doutrina. Entrementes a piedade popular não deixava de professar a santidade de Maria desde a sua conceição.

4. No século VII os orientais, no século VIII os ocidentais começaram a celebrar a festa litúrgica da Conceição de Maria (no Ocidente, a 8 de dezembro, nove meses antes da festa da Natividade de Maria celebrada a 8 de setembro).

Na Grã-Bretanha (séc. X) celebrava-se a Imaculada Conceição. Não se sabe bem qual o objeto preciso dessa festa, pois as dificuldades de ordem teológica e biológica já citadas obscureciam as noções. Como quer que seja, a piedade popular se manifestava sempre do mesmo modo, à revelia de teólogos como S. Bernardo (+1153).

5. Nos séculos XI e XII S. Anselmo de Cantuária (1033-1109) deu um passo importante na trajetória da doutrina em foco. Ao passo que S. Agostinho considerava o pecado original das crianças como verdadeiro pecado, S. Anselmo mostrou que não pode ser pecado em sentido próprio, pois as crianças no seio materno não têm uso da razão. Por conseguinte, segundo esse monge, o pecado original (originado) consiste em uma ausência - ausência da graça santificante e dos dons originais que os primeiros pais perderam e não puderam transmitir; essa ausência não é castigo de Deus, mas é simplesmente a consequência da solidariedade que existe entre filhos e pais; os homens recebem dos primeiros pais a natureza humana despojada da graça, tal como os primeiros pais a tinham depois do pecado de desobediência.

Esta noção de pecado original originado tornou-se definitiva na teologia, e aplainou o caminho para se entender posteriormente a imaculada conceição de Maria.

6. No século XII salientou-se o monge Edmero (+1134) com seu Tractatus de Conceptione Sanctae Mariae. Verifica o contraste entre a devoção dos simples fiéis e a ciência dos teólogos, que se opunham à festa da Conceição; optou pela atitude do povo simples, a quem Deus revela seus mistérios, recorrendo à imagem da castanha. "Não podia Deus conceder a um corpo humano a graça de permanecer livre de toda pontada de espinhos, ainda que tenha sido concebido em meio aos aguiIhões do pecado? É claro que o podia e queria; se o quis, Ele o fez" (ob. cit. 12). É de lembrar que a castanha sai com a sua casca lisa de um invólucro cheio de espinhos.

Edmero muito se aproximou da solução do problema, mas não chegou à noção de "preservação" (Maria foi preservada do pecado original).

No século XIII S. Alberto Magno (+1280) e S. Tomás de Aquino (+1274) negaram a imaculada conceição, porque não viam como a conciliar com a universalidade da Redenção. Admitiam, porém, que Maria tenha sido purificada do pecado no seio materno, logo após a infusão da alma humana no embrião.

7. Finalmente no século XIV interveio o franciscano João Duns Scotus (+1308). Este propôs o conceito de Redenção preventiva, em virtude da qual Maria foi preservada de todo pecado graças aos méritos de Jesus Cristo (e em previsão destes). Maria, como descendente dos primeiros pais, contraiu o débito do pecado original, mas foi dispensada das consequências desse débito. Duns Scotus podia assim afirmar que a imaculada conceição de Maria não constitui uma exceção à obra salvífica de Cristo, mas, ao contrário, manifesta por excelência a eficácia da obra redentora de Cristo. Eis as palavras de Duns Scotus:

"Mais augusto benefício é preservar do mal do que permitir a queda no mal, ainda que com a intenção de livrar do mal. Se Cristo mereceu, para muitas almas, a graça e a glória na qualidade de Mediador e Salvador, por que não pôde ter merecido a inocência para alguma alma?" (De Immaculata Conceptione B. Virginis Mariae, qu.1)

Scotus acrescenta pouco adiante: Deus não está condicionado pelo tempo; Ele pode ter aplicado antes de Cristo os méritos que Cristo adquiriria pela sua morte e ressurreição.

Concretamente, a posição assumida por Scotus quer dizer que Maria não nasceu sem a graça santificante, mas teve-a desde o início da sua existência no seio materno; quanto aos dons paradisíacos, não se pode dizer o mesmo.

A explicação de Scotus foi decisiva. Os franciscanos a assumiram, contribuindo para que mais e mais fosse aceita pelos teólogos. Prova disto é o ocorrido no Concílio de Basiléia em 1439: o cônego João de Romiroy propôs que os padres conciliares definissem como verdade de fé a Imaculada Conceição de Maria; isto foi aceito, mas a decisão não logrou resultado, porque o Concílio deixara de estar em comunhão com a Santa Sé.

Houve ainda resistência à fórmula de Scotus por parte dos dominicanos, que eram discípulos de S. Tomás de Aquino; todavia mesmo entre estes registraram-se arautos da Imaculada Conceição.

O Concílio de Trento (1545-1561) não abordou diretamente o tema, mas declarou não ser sua intenção incluir a Virgem Imaculada dentro da universalidade do pecado original; cf. Denzinger-Schónmetzer, Enquirídio 1516 (792) ver Collantes, A Fé Católica (FC) 3071. Mandou a propósito observar as Constituições do Papa Sixto IV. Este, mediante duas Bulas (1477 1482), proibiu que os teólogos, ao discordarem entre si sobre a Imaculada Conceição, se acusassem mutuamente de hereges e adotou oficialmente em Roma a festa da Imaculada Conceição.

8.  No século XVII, o Santo Ofício (encarregado das questões de fé em Roma), sob a orientação dos dominicanos seguidores de S. Tomás de Aquino, desaprovava a expressão "Imaculada Conceição da Virgem" e preferia que se falasse da "Conceição da Virgem Imaculada". Todavia em 1661 o Papa Alexandre VII, mediante a Bula Sollicitudo, declarou-se em favor da Imaculada Conceição e proibiu qualquer ataque a esta doutrina; explicitou a formulação do dogma em termos que de certo modo anteciparam os de Pio IX em 1854. - O Papa Clemente XI em 1708 estendeu a festa da Imaculada à Igreja inteira.

9.  Uma vez encerrada a controvérsia, o Papa Pio IX houve por bem mandar estudar a fundo o assunto em vista de uma eventual definição dogmática. Para tanto constituiu uma Comissão em 1848. Em 1849 publicou a encíclica Ubi primum, pela qual consultava os bispos do mundo inteiro sobre dois pontos: a Igreja, esparsa pelo orbe, acreditava que a doutrina da Imaculada Conceição era revelada por Deus? Era conveniente declarar essa proposição mediante solene pronunciamento do magistério? Dos 603 bispos residenciais (que falavam como pastores diocesanos), 546 responderam positivamente às duas perguntas. Desta maneira era evidente a fé da Igreja. (1)

(1) Notemos que nãó se tratava de uma "votação democrática" pois esta não constitui critério em matéria de teologia. Mas tratava-se de uma consulta para saber se a Igreja, como depositária da doutrina revelada, sob a guia do Espírito Santo, considerava como artigo de fé a doutrina da Imaculada. Neste caso, não há votação, mas expressão dos pastores, que traduzem a fé de suas comunidades.

A bula definitória passou por oito redações. Finalmente, aos 8/12/ 1854 Pio IX proferiu a definição dogmática:

"Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus todo-poderoso e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original, é revelada por Deus e, por isto, deve ser professada com fé firme e constante por todos os fiéis" (Bula Ineffabilis Deus).






Algumas reflexões se fazem oportunas:

1) O texto da Bula não diz se a doutrina em foco foi explícita ou implicitamente revelada. Depreende-se, porém, dos textos bíblicos adiante citados que se trata de revelação implícita.
2) A razão aduzida em favor do privilégio de Maria são "os méritos de Cristo Salvador do gênero humano". Isto quer dizer que Maria foi remida e pertence à dispensação da graça obtida por Cristo, muito mais rica do que a graça possuída pelos primeiros pais.
3) "Maria foi preservada de toda mancha da culpa original". Note-se que nada foi dito a respeito da questão: Maria terá sido preservada também de todas as consequências do pecado de Adão, como são a dor e a morte? Se Jesus mesmo não quis ser isento destas, Maria também não o foi. Também nada foi dito sobre a concupiscência de Maria: terá sido preservada das tendências desregradas que existem nos demais filhos de Adão em consequência do pecado? Embora muitas petições tenham sido levadas a Pio IX no sentido de uma tomada de posição a respeito, o Papa não quis pronunciar-se.
Resta, porém, que Maria contraiu o débito do pecado, mas não o pecado mesmo. Esse débito não constitui mancha ou sombra alguma. Com efeito: se alguém impede outra pessoa de cair num pântano, essa pessoa não é manchada pelo fato de que teria caído se não fosse a intervenção alheia.
Examinemos agora:

4. Fundamentação Bíblica

Antes do mais, observamos que não existe na S. Escritura algum texto que fale explicitamente da Imaculada Conceição de Maria. ([1])

Apesar disto, a Igreja encontrou, no âmago das verdades reveladas, os fundamentos de tal doutrina. Eis os textos citados pela Bula de Pio IX:

1)  Lc 1, 28: Maria foi kecharitoméne (= foi e permaneceu repleta do favor divino). O anjo não disse "Ave Maria", mas "Alegra-te, kecharitoméne", como se este fosse o nome próprio da Virgem. É oportuno aproximar este texto do único outro texto do Novo Testamento em que ocorre o mesmo verbo: "Bendito seja Deus... que nos agraciou (echaritosan) no Amado" (Ef 1, 3.6). Maria vem a ser a primeira e a mais enriquecida de todas as criaturas. Esta plenitude de graça está ligada à vocação de Maria para ser Mãe do Filho de Deus feito homem. O pecado, que é sempre um Não dito a Deus, não cabe na existência de uma mulher que, por desígnio de Pai, é chamada a colaborar na vitória sobre o pecado.

2)  Gn 3, 15: O Senhor promete inimizade entre a mulher e a serpente. E certo que, tomado ao pé da letra, o texto se refere à única mulher do contexto, ou seja, a Eva. Todavia a mulher que, por excelência, deu à luz a prole vencedora da serpente, é Maria SS. Em Maria se torna pleno o sentido de mulher ou de Eva (= Mãe dos vivos) de que fala Gn 3, 15. O texto também não fala explicitamente de Jesus Cristo, mas refere-se à perene inimizade que na história existe entre a linhagem dos bons e os que seguem o Tentador. São Paulo, porém, descobriu no primeiro Adão o tipo ou a figura do segundo Adão (cf. Rm 5, 14) e a tradição patrística descobriu em Eva o tipo ou a figura da segunda Eva (= Maria). Esta tinha de ser santa e alheia ao pecado para resgatar a primeira Eva, que se entregara à palavra do tentador e ao pecado; ela está em total inimizade com o sedutor e o pecado.

3)  Lc 1, 31: "conceberás em teu seio". Maria tornou-se, em grau vivo e pleno, o que eram a tenda do Senhor no deserto e o Santo dos Santos no templo de Jerusalém. Maria veio a ser também, em termos excelentes, aquilo que era "a cidade de Jerusalém, o monte Sion do Santo de Israel; essa morada de Deus inanimada feita de pedras devia ser pura para que o Senhor Deus nos tempos messiânicos nela habitasse" (cf. Ez 37, 23.27). - Pois bem; mais importante do que qualquer santuário inerte é o santuário vivo de Maria SS.. Em consequência, esta devia ser totalmente pura, isenta de qualquer mancha de pecado. Se o santuário de Maria não foi santo desde o início de sua existência, ele foi um santuário já possuído e habitado por outro Senhor (pelo Príncipe deste mundo; cf. Jo 12, 31); o Filho de Deus não teria podido reconhecer nele a santidade e a beleza próprias de sua casa; contentar-se-ia com ser o "segundo" Senhor do seu próprio Templo.

4)  O povo de Israel, esposa do Senhor Deus. Ao pé do monte Sinai o povo de Israel foi chamado a concluir uma Aliança com o Senhor, que o tirara do Egito. dia em que isto se deu, foi considerado dia de núpcias entre Deus seu povo. Os rabinos muito refletiam sobre tal acontecimento: afirmavam que o Senhor havia preparado Israel como esposa sem mancha para dizer o seu Sim à Lei de Deus. Eis algumas das estórias dos mestres de Israel que ilustram este modo de pensar:

Fílon de Alexandria (+50 d.C.) ensina que os judeus no Egito se haviam tornado réus de transgressões (cf. Ezequiel20, 7s;23, 3.8.19.27). Por conseguinte, deviam ser purificados logo que saíssem da terra da escravidão; isto se faria gradativamente até sanar todas as chagas assim adquiridas. Ora esta purificação se deu no deserto, antes de chegarem ao monte Sinai. Uma vez lavados de suas faltas, puderam acampar ao pé da santa montanha, trazendo vestes de uma brancura incomparável. Nessa alvura Fílon via o reflexo das mentes dos judeus renovadas (cf. De Decálogo 10.45).

O rabino Simeão bem Jochai (+150 d.C.) dizia que Israel, tendo saído do Egito, assemelhava-se ao filho de um rei que se recupera de grave doença. Não poderia ir à escola se não tivesse comido e bebido durante cerca de três meses. Por isto Deus lhe propiciou água da rocha, maná e codornizes (cf. Êxodo 16, 1-36; 17, 1-7). E no terceiro mês após a saída do Egito, o Senhor lhe entregou a Lei (cf. Êxodo 19, 1; Ct Rabbath 2, 5.1). O mesmo rabino, segundo se conta, afirmava que ao pé do Sinai não havia algum israelita trôpego, surdo, mudo ou cego. A assembleia era semelhante a uma esposa sem mancha, à qual o Esposo exclamava: "Como és toda bela, amiga minha! Em ti não há mancha alguma" (Ct 4, 7; cf. CtRabbath, 4, 7.1). "
Mais: o Talmud da Babilónia afirmava: "Quando a serpente foi ter com Eva, injetou-lhe a concupiscência; mas, quando os israelitas acamparam ao pé do Sinai, cessou a incontinência deles (Shabbat 145 b). Naquele dia o mundo parecia ter retornado à inocência original. Israel era a mais bela entre as nações e mostrava-se solícito para com a Lei do Senhor (Me kilta do Rabino Ismael, Jitro, Bachodesh a Ex 20, 2). Israel era a esposa que procedia do deserto toda pura, abraçada por seu amado" (Ct 8, 5[LXX]).

Ora, os Padres da Igreja e os teólogos fizeram a transposição: o que a sinagoga dizia a respeito de IsraeL eles o disseram a respeito de Maria. Com outras palavras: assim como Deus purificou o seu povo de toda culpa e fraqueza, para que estivesse em dignas condições de proferir o seu Sim às núpcias do Sinai, assim Ele preservou Maria de toda mancha, a fim de que o Sim da Anunciação fosse mais belo e alegre. Sem dúvida, porém, a ausência de pecado não dispensou Maria de viver do claro-escuro da fé; ela teve que crer no mistério da Paixão e Morte de seu Divino Filho.

Outras figuras do A. T. poderiam ser citadas a partir das obras de teólogos antigos e modernos. Nenhuma delas constitui um argumento decisivo em prol da Imaculada Conceição de Maria. Revelam, porém, a fé da Igreja (hierarquia, teólogos e simples fiéis). O conjunto de explanações baseadas direta ou indiretamente no texto bíblico é eloquente de modo suficiente para demonstrar que no bojo da Igreja como Mãe e Mestra estava latente a crença na Imaculada Conceição de Maria; esta foi-se manifestando aos poucos, através de altos e baixos, até ser explícita e oficialmente proclamada por Pio IX em 1854.

5. Reflexão teológica

A graça da Imaculada Conceição não foi um mero ornamento concedido por Deus a Maria, mas há de ser considerada dentro do mistério da Redenção e da Igreja.

5.1. No contexto da Redenção
É preciso contemplar cada verdade da fé no conjunto das demais verdades reveladas. Ora pode-se dizer que a Imaculada Conceição possibilitou a Maria uma total entrega à obra de seu Filho em favor dos homens. Sim; esta entrega total encontraria obstáculo no egoísmo do pecado. Maria, sendo cheia de graça (ou do amor que a preservava de se fechar em si mesma e em seus próprios interesses), pôde entregar-se plenamente ao plano redentor do Pai. Pôde abrir seu coração, em nome da humanidade pecadora, à salvação messiânica que o Pai oferecia ao gênero humano. Assim, a conceição imaculada de Maria foi a preparação, arquitetada pelo próprio Espírito Santo, para tornar possível o Sim generoso da Anunciação. É o que o Concílio do Vaticano II lembra:

"Maria, filha de Adão, consentindo na palavra de Deus, foi feita Mãe de Jesus. E abraçando a vontade salvífica de Deus. com coração pleno, não retida por algum pecado, consagrou-se totalmente como Serva do Senhor à pessoa e obra de seu Filho, servindo com Ele e sob Ele, por graça de Deus Onipotente, ao mistério da Redenção. Por isto é com razão que os Santos Padres julgam que Deus não se serviu de Maria como de instrumento passivo, mas afirmam que Maria cooperou para a salvação humana com livre fé e obediência" (Lumen Gentium no 56).

5.2. A graça de Maria, esperança da Igreja
A graça concedida a Maria foi concedida em favor de todos os homens. O S. Padre João Paulo II desenvolve esta reflexão: Maria está no centro da inimizade com a serpente antiga, em solidariedade com todos os seus irmãos:

"Maria fica sendo... o sinal imutável e inviolável da escolha feita por Deus... Esta escolha é mais forte do que toda a experiência do mal e do pecado... Na história da humanidade Maria continua a ser um sinal de esperança segura" (Redemptoris Mater 11).

Mais: a graça recebida por Maria sem mérito próprio da Virgem SS. nos diz que toda a história da humanidade está sob o signo não da desgraça e da condenação, mas da misericórdia, mais forte do que o pecado. Se nós caímos sob o domínio do pecado por fragilidade nossa, não estamos sujeitos, sem remédio, a tal domínio. Somos as criaturas que Deus desde todo o sempre ama, e que Ele procurou recuperar na plenitude dos tempos, antes mesmo que alguém o pudesse merecer. O cristão é, portanto, otimista e esperançoso quanto ao sentido da história. Verdade é que Maria foi preservada do pecado, ao passo que nós fomos perdoados (ou recebemos o perdão). Todavia, no fundo, trata-se da mesma graça divina: é a Redenção realizada por Cristo. Quando pedimos no Pai-Nosso: "Não nos deixeis cair em tentação", rogamos que Ele nos preserve como preservou Maria.

Assim o dogma da Imaculada Conceição tem um significado profundo para a cosmovisão do cristão. Infelizmente, o minimalismo teológico estreita os horizontes e não permite ver o alcance das grandes verdades da fé. É o que se dá com várias denominações protestantes, que consideram a maternidade de Maria como um fato meramente biológico e não levam em conta o seu pleno sentido. Não se pode deixar de ponderar a Maternidade Divina de Maria e tudo o que a ela se prende, como um fato salvífico. É neste contexto de salvação do gênero humano que está radicado o dogma da Imaculada Conceição.


Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 Giovani Carvalho Mendes


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